**** Idéias e Livros ****


Os ingleses e as ruivas

Li dois livros muito interessantes recentemente: “Olhos de Menina”, de Susan Fletcher (Ed. Bertrand) e  “A guardiã do Farol”, de Jeanette Winterson (Ed. Record).

Li os dois em seguida um do outro, por mero acaso. Um eu comprei em um passeio pela Saraiva porque gostei da história, e o outro o meu marido me deu de presente porque achou que era o tipo de história de que eu gostava (rsrs). Então, ao começar a ler “A guardiã do farol”, me dei conta de que, por acaso, os dois tinham muita coisa em comum.

Em primeiro lugar, ambas as autoras são inglesas e, em segundo, ambas as protagonistas são ruivas. E esse último fato não é um mero detalhe. Para as duas protagonistas os cabelos vermelhos são uma marca da diferença, de uma estranheza quase mágica que ambas carregam por motivos diferentes. Mas as semelhanças não param por aí. Vamos às histórias.

Em “Olhos de Menina”,  a personagem principal é Evangeline. Adulta e grávida do primeiro filho, ela mesma nos conta a história do seu primeiro verão no País de Gales, para onde foi viver com os avós depois da morte repentina da mãe. O pai, que lhe legou os cabelos ruivos, ela nunca chegou a conhecer. Naquele verão dos seus oito anos de idade, ela se vê diante da dor da perda, se choca com a desconfiança das pessoas a seu respeito apenas por causa de sua semelhança com o pai que não ficou com uma boa imagem na cidade, e acaba envolvida na estranha história do rapto de Rosie, uma menina da sua idade. A narrativa é fragmentada em um vai e vem no tempo, mas a história é muito bem amarrada e o clima é atraente, fresco e levemente ameaçador. Exatamente como são a aldeia e a fazenda onde Evie mora. A autora, Susan Fletcher, é jovem e esse foi o seu primeiro romance, já premiado e aclamado. Entendi perfeitamente o porquê.

Em “A guardiã do farol”, mais uma vez quem nos conta a história é a protagonista, Silver. Também ela nunca conheceu o pai e vivia desterrada com a mãe em uma casa pendurada em uma parte íngreme da falésia. A mãe também morre – despenca da falésia – e Silver acaba indo morar no farol próximo à cidade, cujo guardião é um cego, contador de histórias. E são essas histórias, em particular a de Babel Dark, um religioso de vida dupla que viveu na cidadezinha no século XIX, que vão determinar a sobrevivência da menina, sempre flertando com a loucura e tentando driblar a solidão. Não é o primeiro livro que eu leio de Jeanette Winterson e, como sempre, é literatura de primeira qualidade.

E, então, voltamos à combinação de ingleses, ruivas, estranheza e magia. Ao comparar os dois livros, me pareceu que a imagem da feiticeira celta de cabelos vermelhos, estranha, solitária e sedutora, ainda é muito forte. O que acham? De qualquer modo, as ruivas renderam belíssimas histórias, que recomendo vivamente.

 

 



 Escrito por Ana Rodrigues às 11h27
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Eu, Ana...
... sou uma artesã da palavra - teço textos, experimento texturas. Estou sempre em busca de novas formas de refinar o fio precioso da palavra em tramas mais sutis, profundas ou delicadas. Entre tantas possibilidades, apenas uma certeza: o trabalho e o prazer da descoberta nunca acabam, o tecido se renova a cada nova idéia e o fio da palavra se estica, interminável, inesgotável...
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