Jorge, Amado, Zélia Gattai e... Paulo Coelho.
Dia desses, em uma excursão doméstica pelas Lojas Americanas do meu bairro, tive a sorte de esbarrar com o livro "Jorge Amado - Um baiano romântico e sensual", da editora Record. O livro, lançado em 2002, é uma homenagem feita ao escritor, poucos meses depois de sua morte, através de relatos da esposa, Zélia Gattai e dos dois filhos, Paloma e João Jorge.
Para mim o livro foi um presente, principalmente pela oportunidade de reencontrar o texto delicioso de Zélia, de quem sou fã devota há muitos e muitos anos. Zélia sempre foi um exemplo pra mim de uma vida bonita. Ainda bem novinha, aprendi com seus livros que a dedicação aos amores da vida – nesse caso, leia-se marido, filhos e a palavra – pode ser uma aventura maravilhosa. Tive a alegria de conversar com ela por telefone uns anos atrás e chorei a sua morte como choraria a de uma grande amiga.
Mas, voltando ao livro sobre Jorge Amado, além dos textos de Zélia, divertidos, carinhosos e apaixonados falando do companheiro de mais de 50 anos, me surpreendi com os bons textos de João Jorge e de Paloma. O livro é mesmo uma homenagem carinhosa, divertida e mais do que justa ao escritor e ao homem que foi Jorge Amado.
Paulo Coelho
E onde entra Paulo Coelho nessa história? Pois bem, estava eu na metade da leitura do “(...)baiano romântico e sensual”, quando estourou a polêmica entrevista de Paulo Coelho em Frankfurt dizendo, entre outras coisas, que não escrevia sobre o Brasil em seus livros porque “o Jorge Amado já cobriu isso muito bem”.
Essa e outras declarações de efeito de Coelho bastaram para que os seus (muitos) críticos se revoltassem mais uma vez contra o escritor. Bem nesse momento, como que por mágica, esbarro em um trecho do relato da Paloma Amado, mais precisamente na página 200, em que ela conta da época em que Paulo Coelho estourou em vendas na França e, sendo Jorge Amado um escritor brasileiro também muito conhecido naquele país, logo começaram os boatos de que Coelho teria dito ser ele, então, o maior escritor brasileiro na França, tendo acabado o reinado de Jorge Amado. Procurado para dar sua opinião sobre tal declaração, Jorge disse:
"Em primeiro lugar, Paulo Coelho não falou nada disso, não adianta tentarem me intrigar com ele que não conseguirão. É um homem de bem, bom caráter, um escritor com uma vendagem estupenda, o que dá inveja em muita gente que não consegue nem escrever um livro, que dirá vender milhões como ele vende." A seguir, Paloma Amado continua contando que Jorge se ofereceu, inclusive, para representar Paulo Coelho na entrega de um prêmio que este recebeu na França e termina: "Assim foi feito, numa festa linda, e papai se sentiu muito honrado em ver o Brasil sendo homenageado através de um escritor de tanto sucesso como Paulo Coelho".
Nunca tive nada contra o Paulo Coelho. Não sou especialmente fã dos seus livros, mas já li alguns em que achei as histórias interessantes, gostosas de acompanhar. Minha única ressalva, e séria, é ao fato de que, nas edições que eu li, os erros de concordância em português eram muitos – espero sinceramente que as novas edições tenham passado por uma faxina na revisão e que o verbo haver tenha resgatado seu sagrado direito de não variar quando no sentido de “existir”.
E como, de um modo geral, não gosto de patrulhamentos, de perseguições, de que fiquem buscando um motivo em tudo o que a pessoa fala para perseguir, duvidar, achincalhar, fiquei pensando se não poderíamos aprender um pouco e termos com Paulo Coelho, com seus livros e com suas opiniões a mesma generosidade que teve Jorge Amado...
Ah! Aproveitei muitíssimo a feira de artesanato daqui da Praça São Salvador! O sol lembrou que eu sou leonina, regida por ele, e ficou no céu justo a tempo de eu visitar as barracas todas e comprar tudo o que eu queria. Tantas coisas lindas! Pena que depois a chuva chegou e diminuiu muito a animação... Mas, pelo jeito, eles voltam no final de novembro! Tomara!
Escrito por Ana Rodrigues às 10h58
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|