A Sangue Frio
Eu era muito novinha - uns 14 anos, talvez - quando peguei para ler "A Sangue Frio", de Truman Capote. Tinha comprado o livro em uma dessas coleções de banca de jornal e não fazia a menor idéia de quem era o autor ou qual o teor da história.
De cara, me apaixonei pela harmoniosa família americana que era apresentada: pai e mãe apaixonados, filhos felizes com a vida que levavam, todos ativos, belos e bem aceitos na comunidade em que viviam. E, de repente, sem que eu esperasse, o horror.
Um crime de proporções que, naquela idade, eu nunca poderia imaginar que existisse, transformou cada membro daquela família literalmente em pedaços e cada pedaço era descrito com riqueza de detalhes.
Nunca consegui terminar o livro, por mais que tentasse outras vezes nos anos que se seguiram. Vim a saber do final da história - e, mais horror, que esta era verídica - muito tempo depois lendo sobre o autor que, por uma estranha coincidência é o mesmo do meu adorado "Bonequinha de Luxo".
Esta semana revivi aquela mesma sensação de horror, de "não é possível que isto esteja acontecendo". Só que agora é ainda pior. Hoje, tenho 39 anos e, infelizmente, já aprendi que coisas horríveis acontecem, sim.
Mas nada, nada poderia me preparar para encarar o que aconteceu com o menino João Hélio. Não consigo tirar o que aconteceu da cabeça, nem parar de pensar na mãe do João. Ela estava lá, viu acontecer. Meu Deus...
Ao contrário da minha leitura de "A Sangue Frio", não dá para fechar o livro. Está acontecendo aqui, na minha cidade, e agora. O horror pode estar à espreita em qualquer sinal de trânsito, a qualquer hora do dia e pode atacar crianças e adultos sem distinção. Pode matar com requintes de crueldade, ou com um simples tiro. Pode aleijar ou dar apenas um susto. Mas está lá, sempre lá.
Escrito por Ana Rodrigues às 10h21
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