Novos ventos, novos tempos, novos livros
Quando comecei a ler o livro de Alex Gennari - "+ 1 ano que não termina", da editora Scortecci - não tinha a menor idéia do que poderia encontrar. Conheço a boa prosa do autor - já que é ele o editor do site Webwriters Brasil - e isso já me bastava para confiar que uma aventura interessante poderia me esperar dentro daquele pequeno volume de contos, mini-contos e afins.
Não me decepcionei, ao contrário, foi um prazer passear pela variedade de histórias, idéias e personagens que Alex nos apresenta nesse seu livro de estréia. Tudo é muito caprichado, desde a arrojada concepção visual de Fernando Vianna, até a estrutura do livro, dividido em "quatro atos": Contos de Longa-Metragem, Pequenas Tragédias do Dia-a-Dia, Pequenas Comédias do Dia-a-Dia, O Tesão nosso de cada Dia e Minhas Corruíras Nanicas - esse último, uma simpática homenagem a Dalton Trevisan. Em cada ato, privilegia-se uma das variações do repertório de textos de Alex - de contos mais robustos, passando por crônicas, contos eróticos e microcontos.
O destaque absoluto vai para o conto que abre e dá nome ao livro: "+ 1 ano que não termina". Nele, o autor nos leva, pelas mãos do personagem Marcelo, a uma viagem no tempo, de volta aos loucos e, ao mesmo tempo, ainda tão ingênuos anos 80. Uma sucessão de fatos jornalísticos importantes; a busca desesperada por sexo casual, como um canto do cisne antes da ditadura da AIDS; a gradual falência do romantismo como opção de vida. Marcelo nos arrebata em suas lembranças e, quando voltamos, a melancolia é inevitável.
Outro destaque vai para "Ruiva", um dos contos eróticos. É ótima a história da mulher que resolve contratar uma garota de programa para "presentear" o marido e depois se desespera com a própria idéia. E vale também uma menção às "corruíras nanicas" de Alex. Microconto não é fácil e só a coragem de tentar já merece reconhecimento. Ele tenta e não faz feio.
Em alguns poucos momentos, Alex flerta com essa linguagem mais fragmentada e, ao mesmo tempo, excessivamente escatológica que caracteriza muitos da chamada geração 00. Entendo e acho válida a experimentação, mas não gosto e acho, sinceramente, que o autor não precisa disso. Seu texto tem solidez o bastante para sedimentar um estilo próprio.
Bela estréia!
Escrito por Ana Rodrigues às 17h06
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