**** Idéias e Livros ****


Dia Internacional da Mulher

O dia de hoje não foi criado para comemorações. O Dia Internacional da Mulher foi criado para garantir visibilidade à luta desta minoria (?) que somos nós contra o preconceito e a violência. Hoje é um dia para pensar, para refletir, para denunciar.

 

Uma das mulheres que mais admiro nesta luta é a carioca Rosiska Darcy de Oliveira. Advogada por formação, escritora por vocação e feminista por ideologia, é uma defensora contumaz dos direitos da mulher. Rosiska acredita que, apesar das vitórias conquistadas, as mulheres acabaram criando uma armadilha para si. “Durante muito tempo, brigamos para ser iguais aos homens. Foi uma formulação equivocada que comprometeu em muito nosso movimento. O correto teria sido a luta pela igualdade de direitos civis", disse a autora em uma entrevista à revista Isto É.

 

Na mesma entrevista, Rosiska diz ainda: "Quando a minha geração negociou a entrada no mundo dos homens, falávamos do lugar da transgressão. No mundo do trabalho, dizíamos para nossos patrões: "Me aceite, você nem sequer vai perceber que sou uma mulher." Na vida privada, dizíamos aos maridos: "Eu vou sair para trabalhar e você nem sequer vai perceber que saí de casa. Nada vai mudar aqui dentro." Queríamos garantir nossos espaços sem prejudicar o santo patrão nem o santo marido. Com esse discurso, ocultamos um fato social fundamental, que só agora está vindo à tona: as vidas pública e privada estão indissoluvelmente imbricadas. No momento em que a mulher conquista seu espaço no mercado e esconde que a vida privada dá trabalho e consome seu tempo, ela oculta que a vida privada prejudica o desempenho profissional. Na luta pela igualdade de oportunidades, é inevitável deixar claro que a vida privada é algo a ser negociado. Não negociamos, assumimos tudo e transformamos nosso tempo em algo elástico. É por isso que as mulheres estão esgotadas."

 

A seguir, pela data de hoje, deixo um presente para reflexão: um trecho do livro de Rosiska, “A reengenharia do tempo".

 

"Tempo para si - Ela olhava para dentro. Olhar vazio, não via a multidão que se comprimia no metrô, nem ouvia o barulho ritmado dos trens nos trilhos. Como se tivesse encontrado um refúgio dentro de si, onde o sigilo fechava a porta às invasões. Essa imagem banal repete-se nos metrôs do mundo inteiro, nos ônibus, nos aviões. Alguém, que busca um espaço interior, entre a casa e o trabalho, porque à sua volta sempre haverá pessoas.A mulher que tem família tem pouca chance de ficar sozinha. Seu tempo é estilhaçado em devoções, é um tempo de respostas, onde pouco espaço sobra para as perguntas que quer fazer a si mesma. Vai ficando distante de si, até não se reconhecer mais, quando se encontra. Um tempo para si, descomprometido, tornou-se o luxo dos luxos, que poucas podem se oferecer.No entanto, é condição básica de saúde mental, o que faz da falta de tempo um problema de saúde pública. As mulheres foram privadas de liberdade, de direitos, foram e são vítimas da violência física. Mas a impossibilidade de um tempo consigo mesmas talvez seja a mais impalpável carência, e nem por isso a menos devastadora. Essa privação cotidiana, como uma lixa, vai gastando os nervos, gerando frustração e criando um sentimento de impotência, já que o inimigo não tem rosto, não se apresenta, é simplesmente uma falta, uma ausência. O tempo pra si não é só um tempo de lazer. É, muitas vezes, o momento da introspecção, de pensar na vida. Tempo de fazer projetos, de sonhar, de caminhar sem testemunhas. Um tempo não hipotecado. Na longa lista de emprego de tempo da mulher, vêm os filhos, os idosos, o companheiro, só não vem ela mesma, personagem secundário, última coadjuvante de sua própria vida. Quando quebra, quando a depressão se instala, a perplexidade em volta é imensa. No imaginário coletivo, as mães e esposas não adoecem, não se cansam, são imortais.

(Extraído de Reengenharia do Tempo, Rosiska Darcy de Oliveira - Editora Rocco)"

 

E então, que tal deixarmos as flores e bombons para dias mais adequados a comemorações?

 

Hoje, proponho aproveitarmos o Dia Internacional da Mulher para nos levarmos mais a sério como gênero...

 

P.S.: Quem quiser saber mais sobre a origem da data dê uma conferida neste post do mesmo dia no ano passado.

 

 



 Escrito por Ana Rodrigues às 13h46
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Eu, Ana...
... sou uma artesã da palavra - teço textos, experimento texturas. Estou sempre em busca de novas formas de refinar o fio precioso da palavra em tramas mais sutis, profundas ou delicadas. Entre tantas possibilidades, apenas uma certeza: o trabalho e o prazer da descoberta nunca acabam, o tecido se renova a cada nova idéia e o fio da palavra se estica, interminável, inesgotável...
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