Que ano, hein?
Este foi um ano estranho.
Do ponto de vista pessoal poderia dizer que foi um ótimo ano: projetos que se concretizaram; encontros inesperados, surpreendentes e interessantes; boa saúde; muito pensamento, muita criação; tudo bem com a família.
Mas quando penso em 2005, me vêm um gosto amargo na boca. Porque este foi um ano daqueles em que a gente percebe com muita clareza que não é descolado do mundo, que estamos todos no mesmo barco. Da terrível tsunami que fechou 2004, aos furacões que arrasaram o império americano já combalido; da decepção sem descrições em relação à política brasileira, ao ônibus incendiado no subúrbio do Rio de Janeiro. Ninguém conseguiu fingir que não estava vendo. Fomos todos espectadores, e, com o susto, nos percebemos de mãos atadas.
Não gosto de me sentir impotente. Quero sensações diferentes em 2006. Mas como? Na minha busca por respostas acabei, como sempre, recorrendo a literatura. Mais uma vez, encontrei alento no mestre Drummond, que nunca me desampara. E se não termino o ano com uma receita para consertar o mundo, pelo menos tenho a certeza de que 2006 será muito melhor do que 2005 se nos recuperarmos do susto e, ao invés de permanecermos de mãos atadas, seguirmos de mãos dadas.
Com a palavra, Drummond:
MÃOS DADAS
(Carlos Drummond de Andrade em "Sentimento do Mundo")
Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história, não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista
[da janela, não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida, não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins. O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os
[homens presentes, a vida presente.

Desejo a todos os que me visitaram neste espaço ao longo de 2005 e às suas famílias, um Natal de energias renovadas e um ótimo 2006.
Escrito por Ana Rodrigues às 09h22
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