**** Idéias e Livros ****


Conversa entre blogs:

A conversa sobre o livro de García Marquez - "O Amor nos Tempos do Cólera" (Ed.: Record) começou no blog da Raquel, o "Pagando a Língua", passou pelo orkut e continuou por e-mail. O assunto rendeu tanto que resolvemos trazê-lo para os nossos blogs e convidar quem quiser a participar. Eu li o livro duas vezes - a primeira há uns dez anos e a segunda, ano passado, junto com meu grupo de leitura - já a Raquel está com o livro fresquinho na memória, pois acabou de ler.

 

Um pequeno resumo? Trata-se da história de Florentino Ariza, Fermina Daza e Juvenal Urbino. Florentino se apaixona pela trança de Fermina, o romance dura algumas cartas, mas ao conhecer seu admirador, a moça rejeita-o e casa-se com Urbino, com quem vive por  quase cinqüenta anos. O amor de Florentino, porém, persiste a vida inteira. No final do livro, Florentino e Fermina se reencontram para resolver a antiga história.

 

Belas imagens são usadas no texto: homens comendo flores; a bela descrição dos amores de Urbino e Fermina no navio...Em primeiro lugar, devo dizer que é um excelente livro - e sei que a Raquel concorda comigo. Gabriel García Marquez não tem o menor pudor de usar todos os recursos de sedução da língua para nos enredar, nos prender. E os usa com uma maestria! Tem momentos em que o leitor se pergunta como as tantas páginas que ainda restam serão preenchidas, já que a história, em seu principal, já foi contada. E é aí que entra o grande truque de Gabo: ele não tem pressa, ele está se divertindo e consegue fazer com que o leitor se divirta com ele - conta casos, fala de personagens que nem tanta importância têm, cria imagens literárias deslumbrantes ou repugnantes, enfim, deita e rola. Mas tudo isso com um talento...

 

Quanto à história de amor (ponto central da minha conversa com a Raquel), para mim, "O Amor nos Tempos do Cólera" é um sofisticado pastiche sobre as grandes histórias de amor. Gabo nos engana desavergonhadamente, propondo contar a história de amor de Fermina e Florentino, quando, na verdade, nos encanta e nos enreda com as comoventes banalidades do amor cotidiano de Fermina e Urbino.

 

Esperava encontrar em Florentino a bela imagem de um Romeu, mas passei todo o livro tendo que lutar contra o horror que o personagem me causou. Em uma cena, ainda no início do livro, em que Fermina foge dele no mercado, agradeci a Gabo por expressar tão bem meus sentimentos e estava ao lado dela, correndo rápido para bem longe daquele ogro.

 

Já por Urbino, me apaixonei. Suas manias de velho, sua honestidade, a modernidade de seus pensamentos, a sua elegante rendição a um amor com o qual não contava, mas que soube aproveitar por cada minuto de seu longo casamento, me encantaram.

 

Me identifiquei com Fermina, mesmo quando a achava passiva, fria ou um tanto cruel. Ela pode não ser a mulher que eu sou hoje, mas trago-a no sangue como um legado de todas as mulheres que foram Fermina até chegar a mim. Porque, mesmo sendo uma mulher do seu tempo, ela também não tinha medo de respirar novos ventos, não tinha medo de experimentar, de conhecer, de aceitar o novo em sua vida com aquela elegância sépia de tempos passados.

 

Levei meu incômodo com Florentino até o final do livro, mas a Raquel fez uma análise do personagem na última fase da história que me fez pensar... Trancrevo:

 

"(...)ao chegar no finalzinho (do livro), acredito que o Florentino deu uma bela volta por cima. Em primeiro lugar, por que ele teve que reconstruir o amor dele pela Fermina. A mulher que ele amou por 50 anos, há décadas não era mais aquela. (...) Naquele momento a atração não era física ou com o intuito único de sexo. Ele, aos 80 anos, descobriu uma nova forma de amor: um amor que começa nas idéias, do convívio, que a gente sente falta, quer mais, e vai crescendo, crescendo, até um dia pegar na mão, beijar na boca e tudo mais. Mas o amor é pela pessoa. O fim é a pessoa. Não o corpo. Não o amor. Naquela hora para mim caiu a ficha de que encontrei o verdadeiro amor do livro; não um amor de 50 anos, mas um amor de 11 dias e mais algumas voltas pelo rio."

 

Gostaria de ver a história sob essa ótica, mas, para isso, acho que terei que ler o livro novamente. O que não será nenhum sacrifício...

 

Pois bem, quem quiser participar dessa conversa, deixe seu comentário aqui e passe no "Pagando a Língua" para saber o que mais a Raquel tem a dizer!



 Escrito por Ana Rodrigues às 09h47
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Uma dica e um convite!

Esta é uma daquelas semanas cheias: viagem no final de semana, aniversário de filho para organizar, trabalho para terminar, feriado no meio do caminho...Só coisas boas - graças a Deus! - mas que estão tomando meu tempo de tal maneira, que o texto que queria postar sobre a visita que fiz à Academia Brasileira de Letras vai ter que ficar para a semana que vem. Mas como não quero deixar esse meu brechózinho literário abandonado por uma semana inteira, aproveito para dar uma dica e fazer um convite.

 

A dica

Um teto todo seu, de Virginia Woolf. Tradução de Vera Ribeiro - Editora Nova Fronteira, 144 páginas - R$ 29,00 É o relançamento de "Um teto todo seu", ensaio de Virgínia Woolf, publicado em 1929, que a Nova Fronteira está relançando. Li o livro há alguns anos e me impressionei com a clareza com que a autora expõe suas idéias, ao mesmo tempo em que reafirma o seu estilo tão próprio de escrever.

 

Em "Um teto todo seu", Virgínia traça um painel da presença feminina na literatura – como escritora – até o final do século XIX. E chega à conclusão de que as mulheres escritoras só começaram a surgir a partir do momento em que lhes foi dado o direito de ter uma renda pessoal e um teto todo seu. Ela também analisa a produção de algumas das principais escritoras da época: Jane Austen, George Eliot, Charlotte e Emily Brontë. E foi quando o assunto chegou em Charlotte Brontë que eu comecei a discordar dela...

O convite

Para entenderem onde discordo de Virgínia, convido vocês a lerem o post "Um reencontro com Jane Eyre, sob o olhar vigilante de Virgínia Woolf", que publiquei aqui em 4 de março de 2004. Eu havia acabado de reler "Jane Eyre", de Charlotte Brontë e tentei ver o livro - e a autora - sob a ótica desfavorável que está em "Um teto todo seu". Não consegui. Apesar de todo o respeito e admiração que tenho pela obra de Virgínia Woolf - e dando o devido desconto à época em que ela viveu - acho que temos uma concepção diferente de como deve ser a escrita de uma mulher.

Confiram e depois me contem o que acharam, ok?



 Escrito por Ana Rodrigues às 19h36
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Eu, Ana...
... sou uma artesã da palavra - teço textos, experimento texturas. Estou sempre em busca de novas formas de refinar o fio precioso da palavra em tramas mais sutis, profundas ou delicadas. Entre tantas possibilidades, apenas uma certeza: o trabalho e o prazer da descoberta nunca acabam, o tecido se renova a cada nova idéia e o fio da palavra se estica, interminável, inesgotável...
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