Escrita feminina? Sim!

Se existe um modo feminino de olhar o mundo, então existe uma escrita feminina. Não falo sobre livros que tem a mulher como centro de uma trama ou de uma teoria, mas sobre o narrar o mundo sob a ótica do ser mulher. Ao longo dos séculos, muitas escritoras se viram obrigadas a renegar a realidade da própria literatura como reação a preconceitos antigos e, infelizmente, ainda vigentes. Não acredito que negando o ser mulher vamos acabar com o preconceito.
Mulher não é igual a homem! Temos um ritmo próprio, uma bagagem ancestral que inclui: relações amorosas, filhos, casa, menstruação, trabalho, muita reflexão sobre tudo o que nos cerca; além de receitas culinárias, plantas, moda, cuidados com o corpo e com a pele, entre tantas outras coisas. E é esse ritmo próprio de viver que dá o tom à arte que produzimos. Está nos livros que escrevemos, nos filmes que dirigimos, nos quadros que pintamos...
Uma das melhores reflexões que já li a esse respeito foi escrita por Marina Colassanti, no livro "Fragatas para Terras Distantes", da Editora Rocco. O livro - muito bom! - é uma coleção de ensaios da autora sobre os mais diversos temas. Em um destes ensaios - "Por que nos perguntam se existimos?" - Marina fala sobre a escrita feminina. Destaco, abaixo, alguns trechos:
"Durante séculos as mulheres foram as grandes narradoras, aquelas que ao redor do fogo ou à beira da cama mantinham vivas narrativas milenares. (...) Criadoras, elas escapam ao controle, se transformam em ameaça. Faz-se preciso retirar a força antes permitida. E qual a melhor maneira de fazê-lo senão duvidando da autenticidade da sua criação? A mulher narradora, antes aceita sem reservas, é posta em questão. Turva-se a limpidez da sua voz com acusações de falsidade, aquela mesma falsidade que já se havia atribuído com sucesso à voz das sereias, à das feiticeiras, e à de tantas mulheres supostamente tentadoras que ao longo da história levaram os homens à perdição. A palavra da narradora perde seu pleno poder.
Mas a literatura traz consigo outro fator extremamente ameaçador. Literatura - reconhecível como tal - implica linguagem individual. E linguagem individual é transgressão, ruptura de normas, questionamento do já estabelecido. Se nos homens a transgressão é estimulada e louvada pela sociedade - o herói é sempre, de uma maneira ou de outra, um transgressor -, nas mulheres ela é execrada."
"Para finalizar, embora não goste muito de personalizar, me parece necessário, como escritora, dar minha posição pessoal. Como todo mundo, temo o preconceito. Mas ele me fere mais do que me assusta. E sempre armei minha defesa não na esquiva, mas no enfrentamento. Escrever, já foi dito infinitas vezes, é assumir todas as formas, é ser homem e ser mulher, é ser animal e ser pedra. O escritor, como o deus marinho Proteu, é criatura cambiante. Mas Proteu mudava apenas de aparência, para iludir os outros e esconder-se, enquanto o escritor busca na metamorfose a essência do homem, a essência profunda, do animal e da pedra, que me permitirá escrevê-los, o que sinto, intensamente, é que eu a procuro dentro de mim, através de mim, através da minha própria, mas profunda, essência. E que essa é, antes de mais nada, uma essência de mulher".
Se vocês derem uma olhada no post abaixo, no trecho da entrevista da Nélida Piñon ao Jornal do Brasil onde ela fala sobre escrita feminina, vão notar que a opinião dela sobre o assunto é bem semelhante à da Marina Colassanti. Eu fecho com ambas: quero ter a liberdade de escrever como e sobre o que quiser, mas sempre com muito orgulho da minha "mirada" feminina.
E vocês - homens e mulheres! - o que acham? Acreditam em uma escrita feminina?
Escrito por Ana Rodrigues às 14h32
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