Ainda presa nas malhas de seda de Nélida...
Já terminei de ler "Vozes do Deserto", de Nélida Piñon, mas o livro ainda continua ecoando de muitas formas dentro de mim. Ainda folheio e releio algumas partes, a discussão no meu grupo de leitura se estendeu por outro mês, quero saber mais sobre a autora, quero ler outras coisas dela...
Por uma feliz coincidência - como já disse, comecei a leitura antes das tantas premiações recentes de Nélida - esta é uma boa época para conhecer melhor a autora. Vencedora dos Jabutis de melhor romance e melhor livro de 2005, ela está presente em várias matérias e entrevistas. Destas, uma das melhores, saiu este final de semana no Caderno B, do Jornal do Brasil.
Destaco, abaixo, alguns trechos da entrevista que me ajudaram a confirmar o que eu já desconfiava: para escrever um obra-prima como "Vozes do Deserto" é preciso, além do óbvio talento, ter inteligência, coragem e...muita opinião.
Quem é essa mulher?
"(...)Sou uma mulher escrevendo mas ao mesmo tempo antenada a tudo, à cozinha, à comida, às visitas, pagar isso ou aquilo, sou muito ligada à realidade e tenho pavor de perder esse conceito do real."
"(...) Sou mulher de deixar as coisas para trás. Há um momento em que sinto que vivi em plenitude aquela experiência e tenho que romper com ela."
Sobre o ofício da escrita:
"(...)carrego a densidade de um ofício que me associa à vida. Considero a literatura uma expressão da vida, que tem um argumentação estética. É uma expressão da humanidade."
"(...) escrevo para o desconhecido, um brasileirinho como eu, a menininha ribeirinha do Amazonas que um dia vai me descobrir. Me dá um vigor dizer que sou uma escritora brasileirinha."
Sobre a tal "escrita feminina":
"O escritor é um ser protéico, tem que assumir todas as formas. Sou tudo quando escrevo, não tenho uma geografia de mulher, minha cabeça se apropria de todos os corpos, sem o que meu texto fica pela metade. A permuta de máscaras enriquece sua percepção de mundo. Tenho todos os sexos, sou panteísta, mas também sou especificamente uma mulher que aporto aquilo que me engendrou. Sou politicamente uma mulher. A política do meu gênero aparece no meu texto."
Sobre a Língua Portuguesa:
"Um conceito dos políticos que me irrita profundamente é quando dizem: “Vamos fazer um novo Brasil”. O Brasil já existe! Tem que apertar alguns parafusos, as reformas são necessárias, mas o Brasil é uma entidade sagrada. Acaso vamos jogar Machado de Assis pela janela? Joaquim Nabuco? Os brasileiros humildes que já existiram? Nossa língua que está consagrada? O Brasil tem uma língua precária em termos culturais do povo que não tem acesso à educação mas a língua portuguesa é um patrimônio nosso que consolidamos, até mesmo com o uso do gerúndio, um tempo verbal extraordinário que o europeu não entendeu até agora. O gerúndio é um tempo de progresso, de andamento, de aflição, que te impulsiona a dar um passo até perto do abismo sem medo."
Sobre "Vozes do Deserto":
"Há muito tempo me interrogava sobre a possibilidade de fazer um livro que em si mesmo mostrasse o que é o ato de fabular, que afinal é a razão de ser do nosso ofício. A imaginação que ficou um pouco como fantasia, portanto como uma propriedade feminina, e daí desvalorizada. A imaginação que assusta os poderosos inteligentes por ser uma alavanca que altera o sentido da história. Não queria que esse romance se passasse no Brasil nem na Europa. Poderia colocá-la nos gregos mas estes tem um lado filosófico..."
"(...)e eu queria as fissuras da imaginação. Só tinha um lugar no meu mapa mental, dos mais fascinantes, um refúgio, um lugar onde se dá um dos fenômenos mais extraordinários da imaginação: o Oriente Médio, com suas tres religiões. É ali que se quebra o paradigma do deus visível e se engendra um deus por abstração. Um povo cheio de pudor, com aquelas batas largas onde ninguém vê o sexo, essa gente modesta, sem o equipamento dos gregos, inventa e aceita um deus invisível. O Oriente Médio é o enclave da imaginação. O lugar do deserto como grande metáfora, um mundo cambiante, uma geografia instável, onde o ser humano não é uma árvore. Eles tem que contar histórias e intrigas o tempo todo porque não tem identidade."
Os que quiserem ler a entrevista ao JB na íntegra, cliquem aqui.
Escrito por Ana Rodrigues às 09h27
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|