O que estou lendo:
O canto
de sereia de Nélida
De Joséphine
e seus florais, passei direto para Sherezade e suas histórias no "Vozes do
Deserto" de Nélida Piñon (Editora Record). Já nas primeiras páginas me senti
seduzida pelo jeito manso de contar de Nélida. Sem perceber, me vi menina,
deitada no colo do meu avô, enlevada enquanto ele lia "As mil e uma
noites" para mim. Cheguei a sentir o cheiro de cigarro misturado com loção
de barba Bozzano que, assim como as histórias, era a marca das inesquecíveis
noites de sábado na casa dos meus avós.
Ainda
estou na metade do livro, mas o gênio da autora, sua feitiçaria com as palavras
já me conquistaram. A princesa Sherezade é, antes de mais nada, o arquétipo da
contadora de histórias. E Nélida tece sua trama ao redor desse arquétipo de um
modo tão delicado, tão íntimo que, por vezes, temos a sensação de encontrarmos
nas dobras da seda de um véu a imagem refletida da própria autora. Mais adiante,
parece que o espelho oferecido à princesa pela escrava Jasmine devolve, de modo
distorcido, a face de cada uma de nós, aprendizes de Sherezade e de Nélida na
arte de contar a vida.
Agora, peço
licença para voltar ao colo do meu avô, aos aposentos da princesa, ao lugar
dentro de mim onde luto para conseguir contar as minhas histórias...Mais tarde
eu volto.
Escrito por Ana Rodrigues às 10h01
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O que eu li:
"Os florais perversos de Madame de Sade"
Ruth Barros, Marcos Gomes e Heloisa Campos - Editora Rocco
Acabei de ler "Os florais perversos de Madame de Sade". Gostei muito. Em primeiro lugar, me agradou a proposta fora do comum dos três autores brasileiros - Ruth Barros, Marcos Gomes e Heloisa Campos - de desenvolver um romance erótico, passado na França do século XVIII. Costumamos importar esse tipo de romance de autores estrangeiro e não produzi-lo. Ponto para eles.
Ao longo da leitura, fica claro que os autores levaram o projeto a sério: eles se apropriam de um importante momento histórico francês com absoluta segurança, criam uma personagem fictícia e costuram a sua história aos mais importantes personagens e eventos reais que marcaram a revolução francesa. A costura é tão hábil que, em muitos momentos, nos sentimos impelidos a procurar melhor para ver se, por um acaso, não achamos o nome de Madame Joséphine nos livros de História. E tudo isso, sutilmente envolvido em um aroma de Brasil. Um aroma discreto, muito bem fundamentado e marcante do início ao fim.
Joséphine é uma menina francesa de origem humilde, que tem como um de seus antepassados o índio tupinambá Poty. Os conhecimentos de botânica desse índio chegam até o pai de Joséphine, que trabalha como jardineiro nas propriedades do Marquês de Sade. A menina sempre foi deslumbrada pelo luxo que a cercava e, depois que perde a mãe por abuso da cruel patroa, a esposa de Sade, torna-se também revoltada e vingativa. Aos treze anos é iniciada pelo Marquês nos prazeres do sexo e da dor - e gosta do que sente. Os caminhos dos dois se afastam por um tempo e Joséphine começa a trajetória que vai culminar em sua consagração como uma das mais poderosas cortesãs da França: a Marquesa de Sade - o nome adotado é uma homenagem ao homem que a iniciou, uma provocação à mulher deste e uma marca do tipo de prazer que sua casa de tolerância oferece e que a faz famosa. Para alcançar seus objetivos, a perversa heroína faz uso de florais, preparados por ela mesma de acordo com conhecimentos que remontam à sua herança brasileira. Cada floral realça um dos pecados capitais e eles são os instrumentos de Joséphine para alcançar seus objetivos.
E nos objetivos de Joséphine está, para mim, o "calcanhar de Aquiles" do livro. A menina do início do livro, que se deixa seduzir pelo Marquês de Sade, é uma jovem mulher de instintos perversos, sem escrúpulos. Imaginei que, ao crescer e ganhar poder, Joséphine seguiria de perto os passos de Sade e nos chocaria, nos afrontaria. Mas não é o que acontece. E o que poderia ser uma personagem transgressora e amoral, mantém-se apenas como mais uma das cortesãs, egoístas, argutas e sacanas que povoam o universo dos bordéis. No fim, me peguei lembrando com saudades da "CLB", a despudorada senhora de "A casa dos budas ditosos", de João Ubaldo Ribeiro. No quesito amoralidade, "CLB" tem muito a ensinar à Joséphine.
No entanto, se "Os florais perversos de Madame de Sade" não atendeu às minhas exigências de transgressão e é mais "leve" do que eu esperava, ainda assim é um ótimo romance, feito com muito capricho. Está mais do que recomendado!
Escrito por Ana Rodrigues às 09h47
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