**** Idéias e Livros ****


Um oásis de sabedoria e bom gosto

Depois de ter me visto mergulhada à força no turbulento mar da política atual por dois posts seguidos, resolvi dar um tempo dessa praia e voltar a nadar nas acolhedoras águas da Literatura. Para que o remédio fosse eficaz, fui direto à raiz, à teoria, ao como fazer. Me agarrei com força às mãos de um mestre, o escritor Autran Dourado, com seu pequeno e precioso "Breve Manual de Estilo e Romance" (ed: UFMG).

 

Trata-se de um livrinho pequeno, de apenas 75 páginas, no qual o autor nos presenteia com um híbrido assumido de memórias e manual de estilo. O resultado é delicioso. Destaque absoluto para as dicas de leitura: o que um escritor iniciante deve ler, de que forma deve fazê-lo e como essas leituras devem - ou não - influenciar o seu estilo.

 

Já no começo, Dourado recomenda: "Ler atentamente os autores que realmente importam eAutran Dourado nasceu em Patos, Minas Gerais, em 1926. É um dos romancistas brasileiros de maior prestígio internacional. depois esquecê-los, para que um dia venha à tona facilmente a história que você buscava sem êxito compor(...). Tenho uma boa receita: se você é prosador, antes de começar a escrever leia um bom poema e deixe que seu inconsciente trabalhe por você. Eu gosto de ler um ou outro poema de Carlos Drummond de Andrade ou João Cabral de Melo Neto, cuja poesia se aparenta muito da boa prosa".

 

Essa recomendação veio ao encontro de um grande prazer meu: ler Drummond, como ele indica ou Adélia Prado - que eu me meto a incluir nas indicações - antes de começar o ritual nosso de escrever de todo dia. Ambos os poetas, além de realmente terem parentesco com a prosa, falam com paixão do ofício da escrita, o que acho mesmo muito inspirador. Querem saber a que me refiro? Bem, acho que Autran Dourado não vai se incomodar que eu abra um parênteses para ilustrar esse parágrafo com um trecho do poema "Procura da Poesia", de Carlos Drummond de Andrade, um dos meus preferidos:

 

"(...)Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consuma
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.(...)"

 

Lindo, não? Pois agora, voltemos a Autran Dourado. Uma das coisas que fizeram com que o "Breve Manual..." me conquistasse é que, ao longo de todo o livro, o autor exalta a importância da leitura na formação de um bom escritor - " O que você deve ler? De tudo, para que descubra por conta própria o que deve ler depois, no tempo da sua maturidade como escritor" - mas, ao mesmo tempo, deixa claro que a leitura deve ser usada como ferramenta do ofício, lendo-se "a trabalho" de forma diferente do que se faz habitualmente por lazer: "Antes de mais nada, se esqueça do enredo (talvez seja melhor você ler o último capítulo em primeiro lugar), o enredo é um recurso de que se utilizam os romancistas para entretê-lo enquanto eles lhe batem a carteira."

 

"Se o livro não manifestar suas qualidades até a página 30, deixe-o de lado"  Autran DouradoComo indicações de leitura, Dourado recomenda, primeiro, os bons artesãos e pede que deixemos os gênios para mais tarde ("nada pior do que ver um anãozinho imitando um gigante"). Dos escritores franceses, ele acha por bem começar com Flaubert e Stendhal; dos russos, Tchecov, Turgueniev e Gogol; dos ingleses, Nathaniel Hawthorne, Sherwood Anderson e Henry James.

 

Em relação aos escritores brasileiros, Autran Dourado se rende sem nenhum pudor a Machado de Assis e é com sua declaração de amor ao Bruxo do Cosme Velho - do qual também sou discípula fiel - que encerro esse texto:

 

"(...) como leio muito obras estrangeiras, para limpar a minha língua, que fica suja, tenho que recorrer ao velho, sempre novo. Recorro a ele (Machado de Assis) não para imitá-lo, mas para continuar aprendendo a escrever. Como escrever bem no Brasil é uma virtude excepcional (quando devia ser obrigação do escritor, o que se pede do escritor não é apenas escrever bem, mas o que está além do escrever bem), há poucos escritores como Machado de Assis para essa profilaxia.É uma boa dieta."



 Escrito por Ana Rodrigues às 15h47
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Eu, Ana...
... sou uma artesã da palavra - teço textos, experimento texturas. Estou sempre em busca de novas formas de refinar o fio precioso da palavra em tramas mais sutis, profundas ou delicadas. Entre tantas possibilidades, apenas uma certeza: o trabalho e o prazer da descoberta nunca acabam, o tecido se renova a cada nova idéia e o fio da palavra se estica, interminável, inesgotável...
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