Mais pérolas
Acho que ter opinião e assumir essa opinião sem medos é uma das atitudes mais corajosas e libertadoras que podemos ter. Acredito que é dessa forma que assumimos a autoria das nossas vidas e podemos, de alguma forma colaborar efetivamente para um melhor desenrolar dos acontecimentos na sociedade em que vivemos.
Por isso, ainda na esteira post anterior, onde comentei sobre o importante papel que a imprensa vem exercendo nas denúncias da crise política brasileira, separei dois exemplos bem recentes do que considero excelentes opiniões sobre a crise política que o Brasil atravessa. Essas pessoas, com a sua opinião, lavaram a minha alma e me fizeram compreender um pouco melhor o desenrolar dos últimos acontecimentos.
A indignação de João Ubaldo Ribeiro
"Peço desculpas pela repetição de algo que já escrevi aqui diversas vezes, mas acho necessário, porque persiste minha impressão de que o povo brasileiro esquece uma verdade importante. Entre nós vigora a soberania popular, expressa no belo enunciado “todo poder emana do povo e em seu nome será exercido”. Embora a Constituição seja violentada ou ignorada o tempo todo, a manutenção desse princípio é básica e consagra a verdade de que o dono do país é o povo e que todo servidor público, eleito, concursado ou nomeado por compadrio é empregado do povo e lhe deve serviço e satisfações. (...)
(...)Ou seja, nossos empregados são de baixa qualidade e agem como se fossem nossos patrões. Não são. E, em relação a Sua Excelência (ou Sua Incompetência, como preferem uns), também é preciso dizer que não estamos aqui para sermos insultados. Que vá Sua Excelência esculachar quem devia esculachar, ou seja, os que lhe são subordinados. O povo não lhe é subordinado e saiba ele que, ao esculachar de modo geral, estará sendo esculachado também, como já é, em todo o país. Eu mesmo o faço, na inviolabilidade de minha casa, pelo menos enquanto não vem aí uma medida provisória revogando essa inviolabilidade. Não o faço publicamente por respeito à instituição que ele incorpora e por não querer cometer injúria. Sou cidadão livre, não devo nada a ele, tenho os mesmos direitos, exceto foro privilegiado e puxa-saquismo e, diferentemente dele, cumpro minhas obrigações. Só tenho é que me precatar contra eventuais prejudicados ou fanáticos, pois até a assassinatos ligam o PT, apesar de, como sempre, o PT não saber de nada. Vocês aí, se já eram tidos como malandros relapsos ou 300 picaretas, no dizer de Sua Excelência, podem ferir mortalmente a democracia. Vão trabalhar e suar a camisa pelo dinheiro que tomam de nós a rodo e querem mais. E a Sua Excelência conto que, a cada xingamento seu, a resposta mínima é “é você” e a máxima é conhecida de todos. Vá trabalhar também, Excelência, e se informe sobre seus subordinados, entre os quais não está o povo. Pare de bazofiar e negue de vez a seus empregadores que conhecia a sujeira que o circunda desde a campanha. Sua obrigação não é viajar e discursar, é governar e prestar contas a quem o elegeu e a quem deve obediência e lealdade." (Trechos retirados da Coluna de João Ubaldo Ribeiro em O Globo de 07/08/2005 com o título "Vocês aí")
A análise bem sedimentada de Renato Mezan
"(...) Como líder sindical e como construtor de um partido, Lula demonstrou possuir "virtù" em abundância: seu carisma, sua habilidade, sua determinação são os responsáveis pela trajetória que todos conhecem.
Desde que iniciou seu mandato, porém, a quantidade de erros que cometeu, ou que permitiu que fossem cometidos por seus ministros e pela cúpula do PT, sugere que lhe falta dolorosamente aquilo que faz de alguém um grande presidente. E tivemos alguns: Getúlio e Juscelino, para ficar nesses, souberam conduzir o país a novos rumos, embora a ambos tenha faltado, no final da vida, o sopro da fortuna.
Parece-me que a atitude do presidente, inteiramente fora de tom e muito aquém do que a situação atual exigiria, provém -pelo menos até agora- dessa ausência. Como notou entre outros Maria Rita Kehl, seu discurso tem sido de modo geral despolitizado e despolitizador: fala como pessoa a outras pessoas, e não como chefe do Estado; emprega quase exclusivamente metáforas retiradas de domínios como o familiar (pais/filhos) ou do esporte (futebol), que nada têm a ver com o registro da política. Falta ao seu governo um projeto de país -e isso apesar de o PT ter atraído para suas fileiras, ao longo dos anos, o maior número de intelectuais já cooptado por um partido no Brasil.(...)
(...) E quanto ao mensalão, mesadão e outras mazelas que vêm aparecendo no que Jô Soares chamou certa vez de "depoimintos"? Que diria Maquiavel de tais práticas? Já sabemos que ele não as condenaria pela evidente imoralidade que encerram. Suponho que se perguntaria se eram eficazes -e, com toda a certeza, diria que não.(...)
(...)Lula precisa retomar a iniciativa, e não será a pregoando que é um homem honrado que o poderá fazer. Quanto a seus assessores, teriam feito melhor em não desprezar a cultura erudita. Ela lhes teria talvez permitido lembrar que, nas tragédias gregas, "hybris" (arrogância) acarreta invariavelmente "nêmesis" (vingança ou castigo). Como diziam os atenienses, "aqueles a quem os deuses querem perder, enlouquecem primeiro com o orgulho" (Renato Mezan é psicanalista e estes trechos fazem parte da matéria "Agora é Lula", publicada no dia 07/08/2005, no Caderno Mais da Folha de SP)
E então o que acharam? Qual a opinião de vocês?
Escrito por Ana Rodrigues às 09h45
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