Um dos meus passatempos favoritos - a bem dizer, quase um vício - é xeretar sites de Literatura na web. Em um desses passeios, descobri o Get Writing. Trata-se de um site, desenvolvido pela BBC de Londres, com dicas e conselhos para escritores. É muito bom! Para quem lê com facilidade em inglês, eu recomendo, em especial, os mini-courses que abrangem desde "Como criar personagens" e "Desenvolvendo Diálogos", até orientações para vários tipos de literatura específica como policial, infantil e de horror.
Encantada com os tais mini-courses, imprimi vários e estou com diversão garantida por um bom tempo. Lendo um dos primeiros, que fala sobre como desenvolver uma voz própria em seus textos, me deparei com o seguinte trecho:
"O que você gosta de ler, assistir, ouvir? Honestamente. Não o que você pensa que deve gostar, mas o que realmente gosta. Muitas pessoas dizem que querem escrever ficção literária, mas o que elas realmente gostam de ler são romances policiais ou novelas leves. Se você não pode superar o seu esnobismo em relação a certos gêneros, não pode esperar que sua audiência o faça"
Parei para pensar. Primeiro, sobre o citado esnobismo - essa classificação de gêneros melhores e piores implícita no discurso de tantos críticos, autores e leitores. Lembrei de já ter visto escritores brasileiros comentando sobre um best-seller engraçado, assumindo que se divertiram mas, logo a seguir, deixando claro que não recomendariam o livro. Afinal, só recomendam a reconhecida nata da literatura e o tal best-seller é apenas uma diversãozinha superficial.
Por que não recomendar um livro pela diversão que ele oferece? Será que livros que proporcionam diversão leve são obrigatoriamente de pior qualidade do que a alta literatura - de preferência aquela que nos faz queimar as pestanas e até sofrer um pouco? É realmente uma questão de gosto apurado, ou mero preconceito?
Deixei essas questões amadurecendo na cabeça, passei adiante e resolvi encarar de frente a pergunta direta do texto: O que eu gosto de ler? Muita, muita coisa. Dos clássicos nacionais e universais até livros de receitas, passando por romances populares, histórias infanto-juvenis e histórias em quadrinhos. É inegável que a dita literatura traz desafios que nos modificam, nos transformam. Mas não posso negar a enorme freqüência com que corro para romancistas de boa qualidade como a inglesa Rosamunde Pilcher e as americanas Bárbara Delinsky, Nora Roberts e Alice Hoffman. Em seus livros, encontro aconchego, diversão sem compromisso e descanso mental. São puro entretenimento, de ótima qualidade.
Pois é, entretenimento. Talvez esta seja a palavra-chave. A que abre a velha discussão que volta e meia retorna aos meios intelectuais: Entretenimento pode ser Arte? O que determina o que é Entretenimento e o que é Arte? Bem, essa é uma nova discussão e talvez eu volte a ela em um texto futuro. Mas agora, embalada nas minhas reflexões sobre a pergunta do mini-course, vou preparar uma xícara de chá, acender o abajur, retirar com toda delicadeza a gata da minha poltrona favorita, me sentar e começar a rascunhar aquele romance a la Bárbara Delinsky que há tempos eu venho matutando...
Antes, só mais uma coisa. Que tal você, que escreve ou tem vontade de escrever, tentar esse exercício sugerido pelo curso Developing Your Voice do site Get Writing?
"Analise o que você lê. Estude sua biblioteca e liste os gêneros que aparecem em maior número - atente para os livros que você realmente leu. O que mais aparece é o mesmo gênero que você pretende escrever? Se for, você não ficará surpreso, mas se não for, você tem alguma coisa em que pensar."
