Mundo estranho, livro estranho...
Começo 2005 cheia de bons propósitos, mas ainda chapada com a tragédia na Ásia e, como sempre, agarrada a um livro. Neste texto, não pretendo falar dos meus bons propósitos – que, a bem dizer, enquanto apenas propósitos tem serventia só para mim. Também não vou me estender sobre a tragédia na Ásia – sobre isso, opto por usar o tempo fazendo o possível para ajudar ao invés de elocubrar demais a respeito. Para esse texto, portanto, resta falar...de livros.
Entro o novo ano com “O Retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde, na mão. Já no início do livro, me salta aos olhos a precisão do texto de Wilde. Me impressionam as frases perfeitas – curtas e certeiras em sua espirituosidade rascante. Fico imaginando quantas vezes o autor escreveu e reescreveu o texto até chegar nesse tom exato...
Se o começo é um pouco lento, como já haviam me prevenido, isso não me incomoda. As descrições ricas em detalhes, o belo ambiente e a sedução natural que o século XIX exerce sobre mim fazem com que eu continue a leitura com prazer.
O desenrolar da história não me decepciona. Além de ousada e criativa, a trama do jovem aristocrata afogado em sua própria beleza e juventude é a “desculpa” ideal para que o autor destile a sua ironia e acidez sem parecer panfletário – ou como ele mesmo acusa na voz de Lorde Henry (o “mentor” do eternamente jovem Dorian) sem ser excessivamente realista. O final é perfeito – conciso e coerente com o que foi lido até então.
Aqui, paro e releio tudo o que escrevi nos últimos três parágrafos. Percebo, curiosa, que falei muito da excelência da técnica de Oscar Wide mas que, ao contrário do meu hábito, não comentei a forma como o livro me influenciou, ou me comoveu, ou me incomodou; enfim, não falei sobre como “O Retrato de Dorian Gray” mexeu comigo. Sabem, acho que é porque não mexeu...
E por que será? Em primeiro lugar, ironia demais, muita malícia e uma visão por demais cínica do mundo e das pessoas ao redor são características excessivas do autor que não me pareceram muito convidativas a estabelecer uma relação mais profunda com ele. Mas não é só isso.
O fato é que, em nenhum momento, o livro me seduziu ao ponto de fazer com que eu me apaixonasse por um personagem ou odiasse outro. Senti falta daquela sensação de ser absorvida por um texto até me perder dentro dele – mais ou menos como quando eu descobri espantada que me havia me deixado enganar pelo ardiloso Bentinho até quase a metade de “Dom Casmurro”!
Pensando bem, acho até que havia uma maneira de eu me apaixonar, mas o autor seguiu por outro caminho. Para que o texto me seduzisse, eu precisaria saber mais sobre o retrato. Acredito que, se os embates entre Dorian e o retrato fossem mais freqüentes e mais profundos, o livro ganharia em humanidade e, por conseqüência, em identidade com o leitor. Wilde nos dá muito de Dorian Gray e pouco do retrato. Muito do dândi de salão e pouco da alma atormentada. Talvez, por isso, “O Retrato de Dorian Gray” seja um livro excelente...mas um livro sem alma.
Vocês já leram? O que acharam?
P.S.: Aproveito para deixar aqui os números de telefone, no Rio de Janeiro, para onde as pessoas podem ligar para saber como enviar ajuda aos atingidos pela tragédia na Ásia: 2576-7297 e 2576-5665, de segunda-feira a sexta-feira, entre 9h e 17h.(Informação reproduzida do jornal O Globo de 30/12/2004)
Não sei nenhum número em outra parte do país mas quem tiver, de fonte confiável, e quiser que eu publique é só mandar.
Escrito por Ana Rodrigues às 11h52
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