Escrever para viver
Eu escrevo e ponto. Será que algum escritor consegue parar nesse ponto final? Ou, como para mim, ele é sempre seguido de uma seqüência de interrogações - Por que escrevo? Para que escrevo? Escrevo como devo? Enfim, “Escrevo”?
Para mim, pensar sobre o escrever é um hábito que se confunde com o próprio ato de escrever. Neste último mês, meus questionamentos foram iluminados pelas reflexões da brilhante autora americana Madeleine L’Engle, no livro “Madeleine L’Engle Herself – Reflections on a Writing Life”, compilado por Carole Chase.
Madeleine L’Engle é muito conhecida nos Estados Unidos por seu grande sucesso “Uma dobra no tempo”, que conta a história de uma menina que, para resgatar o pai cientista desaparecido, precisa viajar no Tempo e no Espaço.
“Uma dobra no tempo” é um dos meus livros prediletos. Li pela primeira vez quando criança, em uma edição da Ediouro, e sempre quis saber mais sobre sua autora. A Internet facilitou muito a tarefa e, já há alguns anos, venho acompanhando a carreira de L’Engle – hoje, uma dinâmica senhora de 85 anos.
Através de várias entrevistas e artigos, aprendi a respeitar não só a autora – que já no início dos anos 60 introduziu com suavidade e maestria conceitos de física quântica na literatura infanto-juvenil – como a brilhante pensadora que ela é.
Por isso, quando soube do lançamento de “Madeleine L’Engle Herself”, fiz o que pude para conseguir o livro e realmente valeu a pena. Foi como ter o privilégio de escutar uma tia idosa, sábia, excelente escritora e muito ousada falar com experiência sobre o que, para mim, ainda são dúvidas, anseios e questionamentos. Traduzo abaixo um pequeno trecho para vocês terem uma idéia:
“Eu ouço minhas histórias; elas vêm até mim, mas cobram um preço. E o artista precisa pagar esse preço, com horas de trabalho que, muitas vezes terminam na cesta de lixo, com uma intensa solidão, com uma vulnerabilidade que, com freqüência, nos machuca. Mas eu não sei se tenho escolha. Fui chamada para servir a um dom que me foi dado - e não importa o tamanho desse dom – e preciso estar pronta para isso. (...) Vejo pessoas de grande talento que não fazem nada com ele e só dizem ‘Quando eu tiver tempo’ ou escondem o próprio talento porque consideram muito arriscado usá-lo.
Sim, é arriscado. Mas eu acredito que é um risco que devemos correr. E acredito que vale realmente a pena, porque a história sabe mais do que o artista “.
Refletindo a partir das reflexões de Madeleine L’Engle, retornei a velha pergunta - Por que escrevo? – e percebi que concordo com ela sobre a falta de escolha. Eu escrevo simplesmente porque preciso. Primeiro para tentar entender – me entender, entender o mundo, entender a vida. Depois, para tentar explicar – explicar o mundo para mim, me explicar para o mundo. E, por fim, porque preciso dar algum destino àquele monte de palavras e idéias que me assaltam nas madrugadas...
E vocês? Quem escreve, por que escreve?
P.S.: Os livros de Madeleine L’Engle não são encontrados com facilidade e a maioria deles, infelizmente, não foi traduzida para o português. Mas recomendo vivamente a quem tiver oportunidade de ter contato com essa autora que não deixe de fazê-lo. Um bom começo pode ser acessar o site www.madeleinelengle.com
Escrito por Ana Rodrigues às 11h30
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