The sound of my musics
E de repente, meu foco é a música. 
Claro que os livros não ficaram esquecidos. Afinal, quem nasce menina-livro, só respira ar puro quando está imersa em algum volume, novo ou antigo. Mas, graças aos superpoderes desse novo computador, acabo de redescobrir a música do jeito que eu sempre gostei – arrumada por mim, em coletâneas loucas em que só eu entendo a ordem emocional.
Durante muito tempo, dominada pela pureza do som dos CDs - em comparação com as chiadas e machucadas fitas cassetes (isso sem falar nos arqueológicos LPs) – fiquei presa à escravidão de ter que ouvir música em uma ordem pré-determinada, de me sujeitar a comprar um CD por causa de metade das músicas, de ter que separar três, quatro, dez CDs diferentes caso eu quisesse experimentar a tal ordem emocional nas músicas.
Mas enfim, graças à abençoada tecnologia, me foi restituída a liberdade de montar as trilhas sonoras dos meus dias. O prazer redescoberto fez com que eu passasse as duas últimas semanas revirando todos os meus CDs em uma enlouquecida colagem musical que volta e meia terminava em uma visitinha a um desses becos escuros da Internet, onde você consegue exatamente aquela música que faltava.
Apresentei o grupo Chicago a Joan Osborne; fiz Alan Parsons vizinho de Air Supply; coloquei Fátima Guedes e Caetano Veloso próximos o bastante para retomarem o fio da meada de alguma conversa a muito perdida. Me emocionei ao me ver com três anos de idade ouvindo a Mary Poppins de Julie Andrews. Matei a saudade dos clássicos de Chico na voz de Gal e Bethânia. Redescobri Frank Sinatra e Charles Aznavour. Acomodei Diana Krall, Billie Holiday e Sara Vaughan em um fantástico sarau musical. Reassumi sem a menor vergonha na cara a minha desabrida paixão por Oswaldo Montenegro e Barry Manilow.
E Queen, Barbra Streisand, Norah Jones, Elton John, Carly Simon, Sandra de Sá, Legião Urbana, Alanis Morissette, U2, Lulu Santos...
O fluxo da música era tão abundante que pela primeira vez, desde que me assumi escritora, experimentei a inspiração chegando também em notas musicais. A sensação foi tão nova, o mensageiro ainda tão desconhecido, que precisei me calar para me reorganizar. O “Ideias e Livros” e eu ficamos, então, em silêncio por um tempinho para não correr o risco de interromper esse fluxo de música e inspiração.
Mas agora, que o rio flui mais suave, corro de volta às palavras, curiosa para saber como elas vão soar, ansiosa por experimentar novos ritmos nas frases e por visitar gêneros ainda desconhecidos. Me pego, inclusive, reinventando o antigo hábito de encontrar para cada livro preferido uma música que o traduza e, hoje, procuro músicas que traduzam as histórias que escrevo.
Por isso, enquanto tento decidir qual a melhor trilha sonora para esse texto – seria um medley? - convido vocês a recordarem comigo: quais são as trilhas sonoras da vida de vocês?
Escrito por Ana Rodrigues às 09h25
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