Nasci no Rio de Janeiro e sou completamente apaixonada pela cidade. Como tantos - cariocas ou não - estou triste e indignada com os abusos que a dignidade dessa cidade preciosa vem sofrendo. Começo esse post com o texto abaixo, que escrevi há dez anos atrás.

Meu Rio de Janeiro
O metrô deveria ser a melhor opção: Saens Peña a Botafogo em 25 minutos - rápido, prático, eficiente e...subterrâneo. Como eu sempre achei que o subsolo da Terra era território de mortos e minhocas, metrô, para mim, só em caso de muita necessidade.
Por isso - pela necessidade - todo dia de manhã, quando vou de casa, na Tijuca, para o trabalho, em Botafogo, pego o metrô na estação Saens Peña para saltar...no centro da cidade. Pois é, a minha tolerância com as exigências da necessidade tem limite. Eu não consigo me convencer de que é saudável a vida de alguém que acorda em um apartamento, se enfia em um túnel embaixo da terra para saltar quase em frente a um prédio de escritórios, onde passará o dia inteiro dentro de uma sala gelada pelo ar-condicionado.
Afinal, eu moro no Rio de Janeiro! Tenho sol, céu, gente interessante, árvores e cores por todo lado. E eu preciso fazer parte disso todo dia, mesmo que seja por apenas meia hora. E essa preciosa meia hora, eu consigo saltando do metrô no Centro e pegando o 119, um ônibus que nunca está muito cheio e que sempre tem lugar na janela.
O 119 faz o caminho dos meus sonhos: logo no início, a linda praça Paris; mais à frente, o outeiro da Glória de um lado, e o Aterro do Flamengo do outro. Pelo caminho, a vida da cidade borbulha: as pessoas saindo apressadas para o trabalho, mães levando os bebês para tomar sol, jovens e velhos bronzeados partindo para a caminhada no Aterro. É uma delícia acompanhar um pouco da vida dessas pessoas todos os dias.
Quando o ônibus dobra à rua Oswaldo Cruz para pegar a praia de Botafogo, eu digo até amanhã para a Baía de Guanabara, guardo com carinho o monte de idéias e histórias que surgiram em minha cabeça pelo caminho, pego a minha bolsa e me preparo para descer, pronta para começar bem o dia.
Pois é, hoje, tanto tempo depois de ter escrito este texto, moro bem no caminho por onde eu passava todo dia e que tanto me encantava. Hoje, esse caminho é a paisagem da minha janela e o meu amor pelo Rio de Janeiro só fez crescer. Mas o Rio que eu vejo quando ando na rua, é bem diferente do que eu conheci no passado e por onde eu andei durante toda a minha vida.
Apesar da paisagem ainda ser de tirar o fôlego, o rosto das pessoas que saem apressadas para o trabalhos, das mães que saem com os bebês para passear, não tem a mesma tranqüilidade de dez anos atrás. Todos parecem compartilhar o medo de que o perigo esteja emboscado na próxima esquina, no próximo sinal...Por isso, somo a minha mais profunda tristeza à de tantos cariocas apaixonados por essa cidade linda e maltratada.
Infelizmente, a solução para os problemas do Rio fugiu há muito do simples desejo dos cidadãos. O problema hoje é grave e complexo demais. Mas, ironia das ironias, parece que apenas os cidadãos percebem isso. No momento, estamos segurando a bomba-relógio e esperando por quem pode desarmá-la, mas esse alguém não chega nunca. Então, o que nos resta? No mínimo, gritar, juntos e cada vez mais alto, cobrar, chamar, até que alguém nos ouça: O RIO DE JANEIRO PRECISA DE ATENÇÃO! CUMPRAM SEU DEVER!
E vocês? Como é o Rio de Janeiro de vocês? Como acham que podemos ajudar mais esta cidade tão abandonada? Alguém quer somar alguma idéia?