**** Idéias e Livros ****


Vocês conhecem "Presente do Mar"?

Estamos assistindo a uma explosão de Lya Luft. Primeira na lista dos mais vendidos há semanas com "Perdas e Danos", ela acaba de lançar mais um livro - "Pensar é Transgredir" - que já começou carreira também no topo das listas. Eu gosto muito de Lya Luft - em especial do livro "Mar de Dentro", que considero bem melhor do que os dois últimos que citei - e me agrada ver uma mulher inteligente, com uma carreira sólida como escritora e poeta ter seu trabalho elevado à categoria de bestseller. Me agrada mais ainda ver que as mulheres estão procurando saber mais sobre si lendo outras mulheres - cheias de conteúdo e de idéias corajosas como Lya.

Mas este texto não é sobre Lya Luft (aqui entre nós, a mídia vêm nos presenteando com matérias à exaustão sobre a autora), e sim sobre um pequeno e quase desconhecido livro que os últimos lançamentos de Lya me fizeram relembrar: falo de "O Presente do Mar", de Anne Morrow Lindbergh.

Anne Morrow Lindbergh nasceu em 1906 e morreu em 2001, aos 94 anos.A história de Anne Morrow Lindbergh, em um primeiro momento, confunde-se com a de seu marido - o famoso aviador americano Charles Lindbergh, primeiro a atravessar o Atlântico em vôo solo - e com a tragédia que marcou a vida do casal: o seqüestro e assassinato de seu primeiro filho. Mas Anne Lindbergh foi também uma escritora de sucesso, com 13 livros publicados. Entre esses, "Presente do Mar" (Ed: Crescer), lançado em 1956, foi um bestseller americano, assim como hoje são, entre nós, os livros de Lya Luft.

E a semelhança não pára por aí, assim como os livros de Lya, o pequeno livro de Anne Morrow Lindbergh traz reflexões sobre o ser humano e, em especial sobre o ser mulher. A autora americana aproveitou um período que passou sozinha, de férias em uma praia quase deserta, para refletir sobre as diversas fases que a mulher atravessa ao longo da vida. Anne usa como ponto de partida para cada uma de suas reflexões algumas das conchas que acha na areia da praia. E assim, de pensamento em pensamento, ela borda um belo livro, poético e reflexivo na medida certa.

Entre os tantos pensamentos e reflexões maravilhosos do livro, destaque absoluto para a importância que a autora dá à necessidade das pessoas lutarem por um tempo em que possam estar a sós com elas mesmas. Cito:

A edição brasilera do livro traz uma conchinha como brinde."(...) O mundo de nossos dias não consegue compreender a necessidade que têm, homens e mulheres, de estarem sós.

Como isso me parece inexplicável! Encontramos justificativa para todas as outras coisas. Se alguém usa seu tempo para fazer compras, para um encontro de negócios, uma dia ao cabeleireiro ou uma reunião social, esse tempo é considerado sagrado. No entanto, se alguém diz "não posso ir porque esta é minha hora de estar só", essa pessoa será considerada rude, egoísta ou estranha. O que dizer de uma civilização em que ficar a sós é considerado suspeito; em que temos que nos desculpar e inventar explicações por ficarmos sozinhos, ou esconder o fato de que gostamos da solidão como se isto fosse um vício secreto!

(...)Algumas fontes começam a jorrar apenas quando estamos sós. O artista precisa ficar só para criar; o escritor para elaborar seus pensamentos; o músico para compor. A mulher precisa da solidão para reencontrar sua verdadeira essência, núcleo indispensável a partir do qual será tecida toda uma gama de relações humanas. Ela precisa encontrar a quietude interior que Charles Morgan descreve como ‘a quietude da alma em meio às atividades da mente e do corpo, para que ela se torne tão serena como o eixo de uma roda em movimento’"

Uma das coisas que mais me espanta perceber, não só neste trecho, como em quase todo o livro, é a atualidade de um texto que foi escrito há quase cinqüenta anos. Também acho interessante o fato de que Anne Morrow Lindbergh cita, em seu livro, a mesma obra de Virginia Woolf que menciono em um texto recente aqui no blog - "Um teto todo seu".

Daí concluo que uma mulher inteligente e interessada em fazer crescer o feminino é um bem precioso a ser apreciado e estimulado em qualquer época: seja no início do século XX, com a audácia criativa de Virginia Woolf; em meados do mesmo século com o delicado presente de Anne Morrow Lindbergh; ou no início do século XXI com a sensiblidade de Lya Luft. Que venham outras, que venham muitas mais.

"Presente do Mar" não é um livro fácil de ser achado, mas vale cada minuto perdido na procura. Eu recomendo e muito. Alguém mais já leu este livro ou ouvir falar da autora?



 Escrito por Ana Rodrigues às 16h15
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Eu, Ana...
... sou uma artesã da palavra - teço textos, experimento texturas. Estou sempre em busca de novas formas de refinar o fio precioso da palavra em tramas mais sutis, profundas ou delicadas. Entre tantas possibilidades, apenas uma certeza: o trabalho e o prazer da descoberta nunca acabam, o tecido se renova a cada nova idéia e o fio da palavra se estica, interminável, inesgotável...
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