Depois de muitos anos, acabo de reler "Jane Eyre", de Charlotte Brontë. Li o livro, ainda criança, antes de saber que era um clássico, escrito por uma mulher que foi uma das poucas vozes femininas a se afirmarem como romancistas em meados do século XIX, e lembro de ter me identificado com as agruras da menina que lutava para impor sua personalidade em um ambiente hostil .
Adolescente, reli o livro já ciente da fama da autora. Minha sensação de identificação e a admiração por "Jane Eyre" não haviam mudado. Pelo contrário, só ficou mais interessante reler sabendo do tom autobiográfico do livro, mesmo que ligeiramente disfarçado, às vezes. Nos livros que li, escritos por mulheres da mesma época, nenhuma delas se mostrava ousada, independente e corajosa como Jane. Curiosa sobre um mundo que as mulheres de seu tempo tinham tão pouca chance de conhecer, ela estava disposta a ir até onde pudesse em sua independência. Além disso, o seu homem não era um belo cavaleiro, montado em um cavalo branco. Era um homem de verdade, com feiúras, rabugices, erros e defeitos graves.
Mesmo escorregando várias vezes no abismo do folhetim barato - sofrimento de criança, internatos, amor proibido, fortunas que caem do céu - Jane Eyre sempre deixou em mim o sopro de uma brisa de vanguarda. Ela voltava aos elementos do folhetim inconformada com eles, querendo dar uma solução nova para aquelas histórias meladas e previsíveis. E sempre achei que ela conseguira.
Mais recentemente, li "Um teto todo seu", um pequeno (e excelente) livro de ensaios de Virgínia Woolf, escritora que adoro e a quem, com certeza, dedicarei um texto em breve. Pois bem, em uma das partes do livro, Virginia analisa o quanto a repressão da mulher ao longo do século XIX se refletiu em uma produção literária pobre, levando-se em conta o grande talento de escritoras como Charlotte e Emily Brontë, George Eliot e Jane Austen. Ela só livra um pouco a cara de Jane Austen. Sobre Charlotte Brontë, cito Virgínia Woolf:
"Poder-se-ia dizer, prossegui, depositando o livro ("Jane Eyre") ao lado de "Orgulho e Preconceito", que a mulher que escreveu essas páginas (ela se refere a Charlotte Brontë) tem mais talento do que Jane Austen; mas, quando alguém as lê e lhes nota aquele tranco, aquela indignação, percebe que ela jamais conseguirá expressar seu talento integral e completamente. Seus livros serão deturpados e distorcidos. Ela escreverá com ódio quando deveria escrever calmamente. Escreverá de maneira tola quando deveria escrever com sabedoria. Escreverá sobre si mesma, quando deveria escrever sobre seus personagens. Ela está em guerra com sua sina. Como poderia deixar de morrer jovem, confinada e frustrada?"
Quando terminei de ler o trecho em que Virgínia Woolf fala com tanta irritação de Charlotte Brontë, me espantei, recordei o quanto gostava do livro e me perguntei se as minhas impressões mudariam agora, eu mais velha e tendo lido a análise de Virgínia. Por isso, resolvi reler "Jane Eyre". E vi que nada mudou. Lógico, os elementos de folhetim saltam mais aos olhos, mas eu continuo me deixando arrebatar pela paixão de Jane Eyre, por sua coragem, por sua impetuosidade. Continuo sentindo aquele sopro de vanguarda.
Não sei se concordo com a proposta de escrita andrógina que Virginia Woolf defende em "Um teto todo seu" e talvez volte a esse assunto em um novo texto. Gosto de escritores que escrevem com seu sangue, que usam a literatura para retrabalhar com talento suas próprias experiências. E, a meu ver, Charlotte Brontë faz isso, ainda mais se levarmos em conta toda a dificuldade de ser mulher, escritora e talentosa em pleno século XIX. Devo confessar que, entre Jane Austen e Jane Eyre, fico com Charlotte Brontë.
E vocês, já leram "Jane Eyre"? O que acharam? Concordam que um escritor deve afastar o máximo possível a sua própria história daquela que pretende contar? Aguardo ansiosa os comentários.