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Quem cuida das nossas crianças? (parte 1)

O assunto maternidade me interessa tanto quanto o assunto mulher - mesmo porque um está fortemente relacionado ao outro. Sempre quis ser mãe e, hoje que sou, me dedico ao ofício com grande prazer. Mas entendo que a maternidade é um tema complicado, delicado mesmo, dando espaço aos pontos de vista mais diversos. Entre os vários textos que já escrevi a respeito, gostaria de dividir este com vocês:

As aulas recomeçaram e, com elas, a rotina de esperar meu filho à saída da escola. Para mim, esta é sempre uma situação que induz a reflexões profundas e um dos temas recorrentes, nesses momentos é: "Quem cuida das nossas crianças?".

Por volta das 17:15, o pátio na saída da escola fica cheio de crianças pequenas - correndo e brincando enquanto aguardam a saída dos irmãos mais velhos ou o final das conversas entre as babás/avós/mães (listado em ordem de maior para menor freqüência).

O Escolar (Camille Roulin, O filho do carteiro - Gamin au Képi) - Vicent Van Gogh, 1888. Óleo sobre tela; 63 x 54 cm. A obra faz parte do acervo do MASP.A maioria das crianças - e eu me refiro a toquinhos de gente com idade entre três e quatro anos - está por conta própria, sujeita a tombos feios, esbarrões de adultos desavisados e joelhos ralados no chão áspero. Até aí, tudo bem, afinal, esses fatores são parte indissociável do muitas vezes trágico universo infantil.

A situação começa a ficar estranha quando notamos que a distração de um dos grupos de toquinhos é desfolhar os poucos ficus espalhados em vasos pelo pátio, sem que um único dos respectivos responsáveis fale alguma coisa, ou sequer tome conhecimento do que está acontecendo. Quando chamados à atenção por outros adultos, os pequenos desmatadores riem debochados e continuam - pequenos, sim, mas já confiantes na impunidade.

O cenário fica mais alarmante quando as crianças resolvem brincar de subir e descer em alguns suportes para apoio de bicicletas que ficam a um canto do pátio. O artefato já é por si só um perigo - de ferro, cheio de ângulos agudos e sem nenhuma estabilidade, já que não é preso ao chão - e, muito provavelmente, exatamente por isso, é um chamariz para os pequeninos.

Só olhar para aquelas crianças subindo e descendo, correndo e tropeçando naquele suporte de bicicletas já garante negras fantasias de cortes profundos, cabeças abertas, pontos, choro e muita injeção antitetânica. Os responsáveis, mais uma vez não estão por perto. Quando um outro adulto, assustado, interfere na tentativa de impedir a criança de continuar a brincadeira quase suicida - no que não é atendido, obviamente - os ditos cujos aparecem sem-graça e bastante incomodados com a intromissão e retiram os pequenos, sempre com um teatro de "meu filho como você pôde fazer isso".

Aliás, essa é uma das características principais de responsáveis relapsos: ao se verem acuados em uma negligência, voam como abutres para cima das crianças e atacam-nas com palavras violentas, xingamentos e, muitas vezes, tapas e beliscões, culpando-as, não só do ato em si, mas principalmente da vergonha que eles estão passando ao se sentirem expostos.

Relendo este texto, percebo o número de vezes em que usei a palavra "responsável" para me referir aos adultos que pegam as crianças na saída da escola. Não posso usar "mãe" e, menos ainda "pai", porque estes são minoria em presença - babás ganham em disparada e avós e avôs chegam em segundo. Constatando diariamente o abandono em que ficam essas crianças, ao lados dos seus "responsáveis", não posso deixar de me perguntar se a situação das nossas crianças não está muito mal parada.

Há exceções, deliciosas de se ver: mães, babás e avós carinhosas e dedicadas que beijam, abraçam e brincam com suas crianças, acompanham de perto suas traquinagens, procurando não tolher-lhes a liberdade, mas dando o sinal de alerta logo que preciso - evitando o perigo e, ao mesmo tempo, educando, orientando com firmeza e delicadeza. Essas são as mesmas pessoas que tentam alertar aquelas outras crianças para que não destruam a natureza - personificada pelo ficus - e não se destruam no suporte de bicicletas.

Mas essas exceções acabam por fazer saltar mais aos olhos o despreparo, a falta de atenção e de paciência, a falta de amor, que são a regra nos pátios de saída das escolas. E é quando eu retorno à pergunta: Quem está cuidando das nossas crianças?

E vocês tem filhos? Como lidam ou lidaram com os cuidados com eles? Quais as suas principais preocupações? De minha parte, não consegui esgotar o tema neste texto, por isso ele é uma "parte 1". Logo postarei os outros dois artigos que fecham esta "trilogia" sobre filhos.  Vamos continuar a conversa?

 



 Escrito por Ana Rodrigues às 13h58
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Eu, Ana...
... sou uma artesã da palavra - teço textos, experimento texturas. Estou sempre em busca de novas formas de refinar o fio precioso da palavra em tramas mais sutis, profundas ou delicadas. Entre tantas possibilidades, apenas uma certeza: o trabalho e o prazer da descoberta nunca acabam, o tecido se renova a cada nova idéia e o fio da palavra se estica, interminável, inesgotável...
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